sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Entre nós, os economistas III

A camarilha de banqueiros que dirige o Ministério da Fazenda e o Banco Central sob comando de Henrique Meireles e Ilan Goldfajn pressiona os estados da federação para vender empresas estaduais como único caminho para receber minguados recursos de Brasília. Os dois bandos (em Brasília e nos estados) sabem que nada é mais impopular e criminoso do que atrasar salários dos funcionários públicos. A pressão é ato filibusteiro apresentado pelo jornalismo como se fosse "responsabilidade fiscal". O caso do Rio de Janeiro ganha destaque cotidiano porque, de fato, a consciência liberal (de esquerda e direita) o apresenta como "o" escândalo quando não passa de norma. No entanto, a apresentação do assalto ao estado na forma do obsoleto folhetim assemelha-se, na verdade, a capítulos de telenovela na qual o final feliz esta certamente reservado aos vilões. É útil para a doutrina liberal afirmar que o Estado é incorrigível perdulário e corrupto quando todos os dias um grande, pequeno ou médio empresário inovador é pego com as mãos nos cofres públicos roubando sem inibição. 

Na "negociação" entre a camarilha de banqueiros dirigida por Meireles/Goldfajn e o Sartori - aquele governador do Rio Grande do Sul que esteve na vanguarda da guerra contra os funcionários públicos que agora se generaliza aos demais estados e municípios do país - os bankesters (mescla de banqueiros com gangsters) pressiona para o governo gaúcho vender o Banrisul. É um caso ilustrativo de nossa situação. O banco é deficitário? Não!!!! Ao contrário. Nem o jornalismo consegue ocultar o fundamental: o Banrisul é o 10 banco na escala nacional, com 66,8 bilhões de ativos. No ano passado acumulou prejuízo? Não! Lucrou 495 milhões nos primeiros 9 meses mesmo em meio a recessão. Em junho do ano passado, o banco pagou 1, 25 bilhão pela folha de pagamento do governo do estado. Em rápida pesquisa, observei que os indicadores econômico-financeiro oficiais não registram prejuízo algum na última década! Em 2014, foram R$ 691,4 milhões e em 2015 o lucro líquido alcançou R$ 848,8 milhões. Ninguém pode se enganar: é precisamente porque é lucrativo que deve ser entregue a outro banco privado e/ou estrangeiro no ultra monopolizado, corrupto e ineficiente sistema bancário "brasileiro". Simples assim. Caso a doação ocorra, será considerada como operação de mercado e racional, quando não passa de mero assalto a mão armada. Roubo. Corrupção da grossa.

Em São Paulo não passa nada. Alckmim, Serra, Anibal, Dória, etc, não são corruptos. Onde não prospera a Lava Jato, não há corrupção. As vezes, quando muito, falta água. Não há crise, simplesmente. Há que entender nosso sistema político em colapso: a campanha eleitoral nunca cessa. Exceto na cabeça daqueles que pensam a política junto com o inicio do horário eleitoral gratuito.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

A república rentista


O orgulho burguês no Brasil assume formas mais modestas a cada dia. No passado recente, os economistas afirmavam os resultados da industrialização e com orgulho indisfarçável diziam que o país possuía o maior grau relativo de desenvolvimento capitalista na periferia latino-americana. Os mais desinibidos recordavam inclusive a “época de ouro” do desenvolvimentismo nacional. Naqueles tempos, os economistas gostavam de dizer que a indústria representava 25% do Produto (PIB). Atualmente, esta cifra não passa de 10%, com "tendência de baixa". Em consequência, agora lamentam a “desindustrialização”.

Há, de fato, algo novo após o Plano Real (1994). A inflação, astutamente considerada pela burguesia o pior inimigo dos trabalhadores, cedeu. No entanto, a corrida entre preços e salários é cada dia mais desfavorável aos trabalhadores revelando que não haverá paraíso na terra às maiorias. As razões foram muitas, mas o controle inflacionário deve-se em larga medida a elevadíssima taxa de juros e o super endividamento estatal. Em perspectiva, podemos observar com certa clareza que o desenvolvimento capitalista assumiu um caráter rentístico inédito. Antes de 1994, as formas de acumulação de caráter fictício existiam e eram bastante suculentas. O sistema bancário, por exemplo, cresceu com elevadas taxas de inflação, esta modalidade eficaz de extrair uma massa de mais valia dos trabalhadores. Agora, podemos ver que a modalidade de estabilização inflacionária pode também representar eficaz meio de extrair uma quota adicional de exploração dos trabalhadores produtivos. Enfim, os banqueiros sabem acumular riqueza e poder nos tempos de inflação elevada e comandam a orquestra nas épocas de baixa inflação. A superexploração da força de trabalho é a norma em qualquer conjuntura, claro está.

A dívida estatal – externa e, principalmente, a interna – é na atualidade um meio mais eficaz de acumular riqueza. A existência e mecanismos de reprodução da dívida garantiram, ademais, confortável pacto de classe entre as distintas frações do capital. No limite, foi possível mesmo assegurar posições subalternas para as classes populares – via programas sociais ou ganhos passageiros aos fundos de pensão – mas como qualquer um pode ver, a festa acabou. O rentismo impôs seu limite de maneira implacável ao antigo pacto de classe iniciado em 1994 e reforçado em 2003 com a vitória de Lula nas eleições presidenciais.

O desenvolvimento capitalista brasileiro acumula com a expansão da renda da terra, a superexploração da força de trabalho, os super lucros comerciais e todas as formas de rentismo possível. Este movimento reduziu a importância da burguesia industrial que cada dia assume feições de uma burguesia compradora. É uma sorte de burguesia cuja expressão mais acabada emergiu no México com a indústria maquiladora, com grau de integração ao mercado nacional não superior a 4%, ou seja, a arrasadora maioria das peças eram importadas e somente montadas em território mexicano para posterior exportação aos Estados Unidos. O caráter lumpemburgues da outrora burguesia industrial é inocultável: a FIESP tem como dirigente máximo um sujeito “sem indústria”. Mais importante ainda, a entidade apoia a linha de tucanos como José Serra para quem não há alternativa ao Brasil senão uma integração ainda mais estreita com os Estados Unidos. A retórica seguirá consolidando a ideia de que a “integração latino-americana” não produziu efeitos positivos, ocultando, obviamente, o fato de que 13 entre 15 maiores exportadores do Brasil para a Argentina (para dar apenas um exemplo) são empresas multinacionais. Macri abriu novo capítulo de endividamento na Argentina e, em consequência, as compras de carros produzidos no Brasil aumentaram em quase 35%!! Ainda assim, a retórica da lumperguesia e de seus políticos medíocres, seguirá sendo “anti-bolivariana” por razoes ideológicas.

Ora, o aprofundamento da dependência é consequência necessária da opção preferencial pelos Estados Unidos, conduzida por José Serra no governo de Temer, a face mais visível do caráter ilegítimo do governo liberal. A devastação industrial será ainda maior, o pagamento de royalties crescerá ainda mais e, não resta dúvida, a dívida estatal seguirá crescente par e passo com a perenização do ajuste sobre o gasto social e o investimento público. A burguesia industrial – que tantas ilusões despertou no passado – exibirá com mais força seu caráter lumpemburguês. Eis a razão pela qual o rentismo assumiu o comando da economia e impôs ao Estado a ideologia da austeridade fiscal que, na prática, seguirá sendo basicamente a redução de programas sociais historicamente minguados do petismo e permanente assalto ao estado por parte das frações burguesas (capital comercial, industrial, bancário, agrário) sob variadas formas. Os governos petistas praticaram superávits fiscais até 2013 num país marcado pela péssima qualidade do sistema de saúde, da educação, da cultura, da ciência e tecnologia, da segurança, etc. Atribuir ao petismo (Lula e Dilma) inspiração keynesiana a política econômica daquela década é ofender a memória do bom moço J.M. Keynes, mesmo quando os keynesianos no Brasil apoiavam efusivamente a política petista. O governo Temer pretende perenizar a austeridade sobre o povo não somente reduzindo os minguados programas sociais do petismo mas também reduzindo e retirando direitos elementares.   

Neste contexto, o governo de Temer não somente é ilegítimo. É também um governo que aprofundará o programa de austeridade e recessivo de Dilma. Portanto, é um governo que pelo caráter ilegítimo e apegado a perenização da austeridade sobre o povo, precisa ser derrubado. Mais do que “Fora Temer”, as lutas sociais precisam bradar o “Abaixo Temer” indicando que não somente a presidência é ilegítima, mas também um congresso nacional sabidamente atravessado pela corrupção de deputados e senadores que, nestas circunstâncias, não possuem autoridade para reescrever a modesta Constituição de 1988. O petismo já evidencia que não poderá encabeçar estas lutas, pois manifesta precoce e completo apego ao calendário eleitoral com o surrado bordão “Lula 2018”, caso o ex-presidente não termine na cadeia ou impedido pelos tribunais disputar a presidência. O PT seguirá sendo um partido da ordem e, ao que tudo indica, incapaz de “refundar-se” como ingenuamente alguns pretendem. À esquerda abre-se imenso espaço para atualizar o programa da necessária Revolução Brasileira e a emergência de uma praxis política renovada pelas exigências sociais das maiorias sem as ilusões disseminadas nos últimos 20 anos. Enfim, nenhuma ilusão criada a sombra do petucanismo pode permanecer diante da guerra de classes que a burguesia declarou contra nosso povo. 

A supremacia do rentismo em suas variadas formas não somente elucida o caráter lumpem da burguesia, mas evidencia que nestas circunstancias as formas de luta assumem também um caráter em aparência “excepcional”. Em consequência, podemos observar que mais do que uma aventura, a burguesia, premida pela crise e por esta transformação de caráter estrutural, avançou na destituição da presidente Dilma ainda sem respeito à lei. As formas jurídicas são irrelevantes e a despeito da composição do parlamento, o decisivo é entender que a atuação “ridícula” ou “patética” das declarações de voto dos deputados na votação do impeachment permitiu, na verdade, abrir as portas para avançar no assalto ao estado e também na superexploração da força de trabalho. As formas institucionais da representação liberal revelam até mesmo para o mais desavisado "eleitor" profunda crise de legitimidade que não poupa poder algum: judiciário, legislativo ou executivo. 

Portanto, as condições sociais exigem a renovação da práxis política de movimentos sociais e da esquerda. A república rentista não corresponde apenas a uma fase do ciclo do capital, supostamente hegemonizado pela fração financeira que, poderia em pouco tempo, dar lugar a nova expansão comandada pelo capital produtivo (nacional e estrangeiro). Há uma mudança estrutural em curso no capitalismo periférico cuja dinâmica esta assegurada pelo caráter rentístico do processo de acumulação, em plena correspondência com formas aparentemente degradadas de atuação política. A coroação deste processo assumirá no Brasil a forma de estreitamento de laços comerciais com os Estados Unidos que orientará a ação do governo Temer. É inútil saber se o país assassinará um tratado de livre comercio tal como Colômbia, México, Chile e Peru o fizeram. A política comercial se orientará em relação aos Estados Unidos em função da força do latifúndio que, em última instancia, é a fração do capital que garante o superávit comercial em larga medida e que também necessita assumir a política comercial estadunidense como ponto de sua própria estratégia. Obviamente, falta combinar com os gringos, especialmente após a vitória republicana recente. Tal como ocorreu nos demais países latino-americanos, a burguesia industrial perderá ainda mais protagonismo na luta de classes. A república rentista exige o fim das ilusões políticas. Aproxima-se, também no Brasil, um tempo conturbado em que os trabalhadores somente poderão contar com sua própria força. A tal "independência de classe" não se apresenta agora como um "desejo" ou aspiração doutrinária, mas como exigência social amparada no desespero, daqueles que somente poderão sair do abismo social em que se encontram a partir de sua própria e exclusiva força. 


Nota: versão ligeiramente modificada de artigo publicado na edição de junho/2016 da revista "Achados de auditoria" do Sindicato de auditores públicos externos do TCE-RS.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O aprendiz de doente

Foi tiro certeiro, como de costume: "você precisa ler o Pequeno Manual do doente aprendiz do Câmara Cascudo". Era Gilberto Felisberto Vasconcellos desde a cidade imperial, em nossa pregação telefônica semanal. Giba queria saber da cirurgia que me deixara de muletas e sem autonomia por 60 dias. Ele deu a receita sem rodeio algum, como se fosse médico. Talvez exista - mas eu não conheço - alguém tão antenado na cultura brasileira feito meu amigo de Petrópolis. É lástima que não tenha auditório amplo, especialmente nas universidades e nos sindicatos. 

Câmara Cascudo é santo de devoção pra Felisberto Vasconcellos. Com orgulho comedido Giba recorda com frequência o único encontro com o sábio brasileiro da cultura popular lá em Natal. De fato, é privilégio que pode ser observado neste potente livrinho ainda que o mestre potiguar tenha impedido por anos a publicação por considerá-lo demasiadamente confessional. Uma cronica hospitalar. Proibiu a publicação enquanto respirou. 

De minha parte, como dizem os hispânicos, li o Pequeno Manual de um tirón. Livro bom, barato e difícil de encontrar é na estante virtual, a maior contribuição da tecnologia gringa para o leitor fiel. Compensa fácil a cronica e colonial falta de bibliotecas públicas. Sofremos a interminável morte da memória nacional, segundo Franklin de Oliveira. Agora sou mais um entre milhares de brasileiros em recorrer a sabedoria enciclopédica de Câmara Cascudo diante de qualquer dificuldade mundana.
Resultado de imagem para Imagem de Cascudo - Fragmento de Drummond

Carlos Drummond de Andrade advertiu no ano rebelde de 1968 a receita que Giba me apresentou agora, num momento difícil: "O Cascudo aparece, e decide a parada. Todos o respeitam e vão por ele. Não é propriamente uma pessoa, ou antes, é uma pessoa em dois grossos volumes, em forma de dicionário que convém ter sempre à mão, para quando surgir uma dúvida sobre costumes, festas, e artes do nosso povo..." Cascudo é expressão nacional, disse o poeta de Itabira.

O livrinho nasceu após 45 dias de permanência num hospital. Leu e escreveu, suspeito, todos os dias. Eu, comparado ao folclorista, sou menor até nisso: rasas 5 noites. Além da genialidade, ele tinha a vantagem de ter estudado medicina até o quarto ano quando abandonou o bisturi porque queria ser um homem do Brasil. No entanto, não desprezo minha fugaz internação, pois foi tempo suficiente para sacar a rotina hospitalar e reconhecer identidades e contrastes com o relato feito pelo homem que apreciava charutos.

Câmara é cascudo. É também sensível, dialético. Reconhece a questão na coisa simples, na linguagem, no comportamento, no hábito. Não despreza história, conto ou crença popular. Mesmo no fundo do Hospital das Clínicas produziu texto repleto de sacadas úteis e imensa sabedoria. Lia em espanhol, francês e inglês, vi nas referências. Manteve relação com Fernando Ortiz, o grande historiador e sociólogo cubano, também folclorista, mas à moda caribenha. Vê-se o apreço pelos tratados de medicina. É um espanto que os gramscianos brasileiros não imitem o marxista italiano e mergulhem fundo no folklore, via Cascudo. Gramsci escreveu profusamente sobre Pirandelo, Leoni, Antonelli, Martini, Villauri, e tutti cuanti como se pode ler no Il nostro Marx. Os gramscianos dos trópicos, ao contrário, pretendem-se versados na cultura européia. É tal o colonialismo entre nós que certa vez ouvi na UFSC uma pérola: "Mariátegui é o nosso Gramsci", como se o peruano necessitasse da ociosa comparação para evidenciar grandeza. Esta atitude colonizada é também traição ao próprio Gramsci. Na verdade, é conduta anti-gramsciana mas cai como luva na escolástica e estranhamento que comanda a maior parte da vida dos letrados festejados e da boçalidade acadêmica. Melhor assim, pois não é necessário sujar as mãos com nossa realidade vital. O Borges de 1925 sacou de imediato o problema, ainda que tenha renegado mais tarde sua original descoberta: "nossa realidade vital é grandiosa e nossa realidade pensada é mendiga". Avançamos algo, é claro, mas neste momento da vida brasileira somente um projeto cultural revolucionário pode sacudir a piramide que nos amassa; até lá, na cultura, teremos mais diversão do que contribuição fecunda. Além, é claro, de milhares de dissertações e teses.


No Hospital estive imóvel. No último dia, antes de sair, caminhei duas vezes no corredor com aquele andador desajeitado de quatro patas; sentia-me uma girafa, confesso, mas pelo menos eu andava. O intestino e os rins paralisados pela anestesia até o último dia de internação. Deitado, com os olhos para o teto, manhã, tarde e noite. À esquerda, a janela lateral permitia ver o sol das manhãs e as luzes noturnas, por vezes tomado pela fantasia de que lá fora a felicidade comandava a vida da cidade. Todo final de tarde sonhava ingenuamente com a ordem da doutora, "vai... pra casa!". Ao contrário de Cascudo eu não estava enfermo, unicamente convalescente e com internação limitada. Ainda assim, saí de lá tomando 10 comprimidos diários e outras tantas recomendações na mochila para os primeiros 40 dias. "Não pode isso, nem pensar naquilo e jamais aquele outro". Não pode dirigir, não pode calçar o sapato e não pode deitar no lado do corte, o direito. O poeta Ludovico Silva recebeu o recado de um anjo ("nenhuma gota mais Ludo"), enquanto o meu chegou pela boca do enfermeiro chefe: "nos próximos 50 dias nada de álcool Nildo". Dormir do lado esquerdo somente com travesseiro entre as pernas para não desalinha-las e comprometer a cirurgia. Dormir do lado direito nem em pesadelo. Nas costas, a pele se esfarela, produz escamas. Lá eu mirando novamente o teto, agora em casa. Também deixei dois ou três quilos no quarto no qual enfermeiros seguram o pós operatório com sumo zelo. O primeiro banho ainda no hospital me foi dado por duas enfermeiras como se fosse eu um recém-nascido. É a impotência completa, sentimento que garante imensa naturalidade, nenhum constrangimento. Elas tiram de letra, com habilidade invejável. Já fora das quatro paredes, contraí alergia que rendeu adicionais 3 comprimidos diários pra combate-la por mais 7 dias. O cheiro do corpo muda. A incorrigível desatenção para detalhes práticos me fez suportar a dor por 4 dias de maneira desnecessária, até Júlia ler com atenção a receita que indicava outros 3 comprimidos diários para tornar a vida leve. A primeira pílula em jejum, outras duas após o café da manhã, outra meia hora antes do almoço, outra mais a cada 8 horas... A anestesia, os cochilos inevitáveis para quem permanece na cama, a falta de exercício, tudo contribui para o descontrole do sono até o horário natural voltar.

Julia no comando
O Manual de Câmara Cascudo é para doentes mas dedica atenção maior aos médicos e retrata uma época. Os médicos de Cascudo são próximos, quase amigos; ele possui relação íntima com seus doutores e o afeto comanda a relação médico-paciente. Quando deu entrada no Hospital, o professor Luis, já era Câmara Cascudo! O médico e a medicina de Cascudo não mais existem como norma e se assemelham aos dentistas de Keynes, ambos necessariamente modestos. A propósito, o dentista modesto também é agora exceção, tal como a maioria dos médicos. Cascudo os compara a modéstia e sabedoria dos marinheiros, "tanto mais conhecendo o mar, tanto mais receosos de sua surpresa".

O médico moderno, ao contrário, tem fé desmedida na técnica e na tecnologia. Tampouco teme os mares desconhecidos da vida e da morte que orientam o destino de seus impotentes pacientes. É médico "high-tec". Carrega certa auto-suficiência, antídoto contra a intimidade com o paciente, certamente repleto de angustia e temores. O "meu" médico é tão conceituado que dispensa relação pessoal. Eu estive com ele duas vezes. A primeira por 20 minutos quando fui conhece-lo para decidir a cirurgia. A segunda, quando apareceu no meu quarto para informar que seu bisturi cortou com precisão. Na palavra sem modéstia, tudo saiu "perfeito". Adicionais 5 minutos. Vou vê-lo novamente em poucos dias, talvez mais 20 minutos, com sorte. Um abismo quando penso nos doutores amigos do Cascudo. Agora, a escala é industrial e nas condições da medicina capitalista, num país dependente, creio problema sem remissão. A única saída pro sistema de saúde é o cubano, sem dúvida. Ou medicina privada pra poucos.

Cascudo recorre à tipologia mas indica a inspiração kantiana de suas categorias. Existiriam os médicos basálticos, os graníticos e os aluviais. Os três são, no entanto, humanos, próximos do paciente e seus dramas. São amigos e pode-se suspeitar que sofrem algo com as dores alheias. O médico aluvial é filho do século XX e deposita suas esperanças na capacidade da ciência. Os anteriores, embora vizinhos de condição, mantém-se presos a certa experiência da relação entre médico-paciente. Numa época em que o homem pretende rivalizar com a velocidade da luz, o médico é cada dia mais Aluvial, aquele que prepara o caminho mais seguro para os demais, em alguma medida arredios a novidades. Embora possa parecer óbvia, é sacada fina que somente teria sustento sociológico mais tarde com o Homem unidimensional, de Marcuse.

À todo doente aprendiz, Cascudo repete com profundidade: "quem não adoece, não se conhece". É certo! Nas três parcas páginas dedicadas aos doentes, caem pesados recados a maneira homeopática. A doença é "processo de análise", "rara oportunidade para o auto-encontro". O "orgulho é a antítese da doença" e, finalmente, num parágrafo mais ambicioso, de extração psicanalítica, estabelece a sentença: "o sofrimento, a relativa imobilidade da clinóstase, as horas solitárias, o desinteresse pela vida pública, reduzida a uma farfalhante atividade de superfície, valorizam a delicadeza, a curiosidade mental, a jornada sutil, nos meandros da Percepção, emergida dos abismos inconscientes".

A ausência de afeto não autoriza, em meu caso, desprezo algum pela maestria do doutor Canella e as advertências sem rodeios da doutora Carla. Ao contrário, as dores que me acompanharam nos últimos dois anos desapareceram e ontem arrisquei passos sem ajuda de instrumento algum. Agora é encarar a lenta fisioterapia. Os enfermeiros foram muitos e as fisioterapeutas outras tantas. Vozes delicadas, atenção suprema. Impossível registrar todos os nomes. Atenciosos, transmitiam calma, pequenas doses de segurança e minimizavam os temores da alma. O quarto, como manda as regras dominantes, era asseado por um haitiano. A sua maneira ele desejou-me sorte com o gesto juvenil dos dedos e sorriso distante. O hospital parece funcionar sem os doutores na normalidade  dos enfermeiros.

Visita dos camaradas



Além da cicatriz, guardarei a memória de minhas visitas. Elaine e Maicon foram os primeiros em trazer alegria. Juntos chegaram Lauro, Danilo e Capela em suspeita coincidência, como se tivessem combinado uma assembleia na qual eu tinha nítida desvantagem. Nada foi a votos. Mauricio apareceu pra recordar que nada de novo ocorria sob a luta de classes. A irmã Nilva acompanhou pelo telefone e Nilso também. Eliete, mãe de minha adorável Júlia, estendeu mão amiga. Júlia Erêndira foi preciosa. Enfermeira sem diploma, paciência infinita e, por alguns dias, tal como num milagre, deu a devida atenção ao celular, permanecendo atenta aos meus chamados. Na prática, ela reservou as férias para suportar meu humor. Foi dedicada, serena e gentil. Fez os curativos, tratou a ferida. Afago de filha, mas já mulher, dona de seu nariz. Aprendi por enésima vez que ela cresceu. Lição necessária e sempre tardia, determinada pelo tempo que corre lento, quase imperceptível e, obviamente, impiedoso.

Quando em casa, a solidariedade brotou de fonte inesperada. Isaac, o vizinho, vestiu meia, calçou sapato, deu carona e fez compras; chamou por telefone e esteve pendente como se, de fato, fosse membro da família. Sidnei, o pintor de paredes e parceiro flamenguista, ajudou em pequenas necessidades transformadas pelas limitações físicas - e não menor imaginação - em obstáculos tão impossíveis de remover quanto catedrais. Não esquecerei os bolos de laranja de Patrícia e Lauro. Depois chamei Beatriz, quem foi minha motorista, logo promovida à condição de secretaria executiva com plenos poderes. Jonathas, o arquiteto, comandava a reforma da casa, também vestiu e tirou meia. Preta manteve paciência infinita na luta contra o pó que não deu trégua até o ruído das pequenas máquinas lixadeiras silenciarem por completo. Fábio Lopes foi o camarada de sempre e me concedeu pousada por uma semana, quando era impossível viver sob os escombros da casa em reforma. Toda manhã café e conversa fiada. Fiada na amizade certa e não poucas divergências políticas que se acumulam - ambas - com os anos. Os dias passavam na lenta medida da cicatrização. Ela, a cicatriz, é um risco no corpo e um fio na memória mas, como todo sofrimento passado, é agora mera crônica, transforma-dor. Recordo Cascudo: "quem não adoece, não se conhece". No outro lado do rio, observo com humildade aqueles dias. Caminhando sem limitações aparentes, estou "pronto para outra", mas prefiro não. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

sobre as leis de bronze da lumpemburguesia

A lei de bronze como lei moral
Não poucas vezes a consciência ingenua dos homens é governada por leis de bronze. Leis de bronze são consideradas não somente eternas mas também inflexíveis. Guiados por semelhante crença, eles julgam suficiente a adoção de uma lei qualquer para transformar o mundo ou criar garantias contra as paixões inerentes a vida, sempre avessa a disciplina dos poderes. A experiência ensina que as leis de bronze se assemelham aos postulados morais, razão pela qual a consideração de que "um país não pode gastar mais do que arrecada" equivale ao mandamento sagrado "não matar", "não roubar" ou "não desejar a mulher do próximo". A violação das regras morais tal como o desrespeito às leis de bronze implicam em condenação sumária, castigos severos ou ainda o inferno.

O pecado original e a expulsão do paraíso - Michelangello
O fascínio que certas leis de bronze exercem na cabeça dos homens e a eficácia que eventualmente podem adquirir na vida social, tampouco resiste ao confronto com o real. Neste sentido, as leis de bronze quando exibem sua solidez, cumprem funções ideológicas, ou seja, cumprem funções de legitimação de determinada política ou contribuem com o processo de dominação em seu conjunto. Mas jamais serão eternas. 

A lei da responsabilidade fiscal é de bronze
A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é a principal lei de bronze em uso na sociedade brasileira. Em consequência, a legitimação político-social para o processo de destituição da presidente Dilma apareceu inicialmente sob a forma jurídica de crime de responsabilidade cometido contra a lei fiscal, obrigação de zelo absoluto de todo governante realmente preocupado com a sorte republicana. A imprensa e os políticos da ordem insistem que as "pedaladas fiscais" constituem crime de responsabilidade, a despeito dos pareceres técnicos em favor da presidente Dilma no senado. A questão não é técnica, obviamente; de resto, sabemos que política e verdade raramente coincidem. A oposição tucana apelou à LRF consciente do golpe certeiro contra a legitimidade da presidente mas também porque inauguraria nova cruzada moral em favor da valiosa lei de bronze: nenhum governante pode produzir déficits, pois estes seriam, especialmente em tempos de crise, muito nocivos para o Estado e para o bem estar social da população.

Em perspectiva histórica, esta cruzada em favor da austeridade e contra o déficit público atua como espécie de reforma moral em meio a crise. Era preciso - sabe a classe dominante - manufaturar a opinião pública favorável as políticas de austeridade iniciadas por Dilma e agora em fase avançada de consolidação com Temer. Neste tempo turbulento, toda economia de recursos é necessária, razão pela qual os já minguados programas sociais antes motivo de orgulho dos petistas representam luxo porque, como acredita o homem comum, "a vida não esta fácil para ninguém". A maior parte das pessoas julga que a crise afeta a todos negativamente e nem nos piores pesadelos podem supor a crise como aquela oportunidade extraordinária para os capitalistas acumular fortunas e/ou criar condições para conquistar maior riqueza e poder.

Ao povo, a austeridade permanente
Portanto, a destituição da presidente Dilma cumpre objetivos imediatos e estratégicos. No curto prazo, justifica o supressão de muitos direitos dos trabalhadores. No longo, impulsionado pela força da reforma moral, abre tempo de experimentação burguesa contra a ampliação do horizonte político nacional, exatamente quando aos olhos de milhões de pessoas o sistema político se revela miserável, intragável. Enfim, a reforma moral em curso limita toda política no país à enfadonha administração competente da crise no momento em que milhões recusam com asco o fazer político burguês.

Na exaustão do sistema político emerge a figura e evidencia-se a função de Temer. Nada mais afeito à crise que um político com o perfil do golpista. Temer é perfeito porque "chegou lá" pelas mãos generosas do pragmatismo petista, aquele mesmo pragmatismo considerado até bem pouco tempo não grave limitação política ou submissão à correlação de forças supostamente desfavorável para avançar em direção de reformas radicais em favor do povo mas, ao contrário, um pragmatismo então considerado pedra angular da astucia e da inteligencia lulista pretensamente capaz de agradar proletários e burgueses em favor de alguns trocados para as classes subalternas. Ademais, Temer é a quinta-essência burlesca do bacharel oitocentista, misto de discurso e gesto antiquado, mas disponível à política de modernização de todas as frações do capital e disposto a seguir com enorme convicção para o lixo da história com direito a aposentadoria de presidente sem culpa no cartório. Ele próprio talvez não saiba, mas ao menos suspeita que ao tocar no teto, tocou também no fundo.

A república rentista e a lumpemburguesia
A popularidade insistentemente baixa de Temer e a estética retrô que insinua não o torna menos perigoso ou uma ameaça somente evidente após o golpe, quando rompeu com seus companheiros petistas de aventura. Um homem disposto a tomar qualquer medida contra os trabalhadores e depois retirar-se à vida privada como ele próprio já anunciou, é um homem pronto para aceitar qualquer negócio. A propósito, as recentes denuncias de corrupção contra ele apenas elucidam sua disponibilidade histórica para aceitar qualquer negócio.

A beligerância de Temer resulta, portanto, em algo mais valioso que sua disposição manifesta para as transações tenebrosas: reside no "comando" de um governo controlado sem inibições pelos banqueiros com apoio das demais frações do capital (comerciantes, industriais e latifundiários). Nas circunstâncias atuais, a única fração de classe capaz de dirigir o país é, de fato, a fração financeira, pois a regressão da burguesia industrial é enorme e sua consciência de classe em nada se assemelha ao comportamento clássico da burguesia industrial inglesa do século XVIII, quando comandou a revolução industrial em favor dos seus interesses. Diante da lumpemburguesia brasileira, somente a fração financeira possui clara capacidade de colocar as condições gerais do funcionamento da economia mundial em seu proveito, dividindo de maneira desigual o botim. Adeus desenvolvimentismo!

Nunca será ocioso recordar a importância do "ajuste" praticado por Dilma para sedimentar as condições necessárias ao golpe agora denunciado pela ex-presidente. Ela estabeleceu o fim de seu mandato ao julgar possível a manutenção das regras do jogo - super lucros para o capital e passividade dos sindicatos e dos movimentos sociais - realizando a política da direita em matéria econômica em "troca" dos minguados programas sociais dos governos petistas. No fundo não logrou mais do que a digestão moral da pobreza, porque como agora podemos ver, o efeito dos programas sociais inéditos na historia do país, se derretem feito gelo ao sol. A força da crise solapou sem demora esta ilusão. A direita aproveitou o momento e retomou a iniciativa política no terreno parlamentar, na imprensa e, de maneira surpreendente, nas ruas. Os trabalhadores e suas organizações apenas despertam da anestesia que supunha possível o fim do abismo social nos marcos do capitalismo. A reforma moral esta em curso e seu nervo mais importante é a LRF cujo objetivo evidente é a perenização do princípio da austeridade contra o povo. Somente assim podemos entender as leis contra os direitos trabalhistas, o aperto contra os governos estaduais, o fim do reajuste para o funcionalismo público, etc, etc.

No purgatório é possível pecar
A oposição tucana ao governo dispensaria o suposto descuido de Dilma com as contas públicas e, de fato, eles se lançariam à luta por sua destituição sob qualquer argumento. No entanto, foi Dilma quem permitiu a ofensiva quando os impactos sociais do ajuste praticado pela presidente eleita com discurso de corte keynesiano afetaram agudamente os mais pobres, negando a promessa da campanha vitoriosa. O golpe foi fatal contra os trabalhadores e ainda mais corrosivo nas filas da resistência a estratégia golpista. No entanto, a tragédia se completou somente quando, em sua defesa, a presidente alegou que jamais desrespeitou a LRF e que os atos ou decretos emitidos não violavam a lei de bronze mais valiosa para a burguesia brasileira. Enquanto a escalada oposicionista argumentava contra o "gasto sem caixa" - como se o orçamento de um Estado guardasse alguma semelhança com as finanças pessoais - a presidente alegava que o atraso dos pagamentos pelo Tesouro Nacional aos bancos estatais que financiaram gastos do governo (Bolsa Família, Plano Safra, etc) não geraram déficits. Em sua defesa, a presidente repetiu mil vezes que jamais desrespeitou a LRF e, em consequência, não teria existido crime de responsabilidade. Assim, ambos, governo e oposição, se digladiavam em combate de morte pela mesma causa! Enfim, ainda no momento decisivo da disputa parlamentar, o petismo manteve o pacto com os tucanos na afirmação da "política fiscal responsável" e a renuncia a toda manifestação de heresia na condução da política de estado.

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As almas resgatadas do Purgatório
Qualquer keynesiano de mediana formação saberia que a recessão econômica inaugurada por Dilma (estoque superior a 12 milhões de desempregados) e aprofundado por Temer, tornaria a situação fiscal ainda pior como os números agora confirmam. A política sem heresia, sem risco, o apego ao pragmatismo como ethos político de conciliação de classes, chegava tragicamente ao fim. O petismo descobriu em meio ao pesadelo que o pragmatismo é terreno pantanoso, repleto de riscos, ao contrário do que supunha tanto sua base social quanto seus mais importantes "dirigentes". Ao que tudo indica, a dura lição não implica em correção de rumos. A lógica do petismo durante toda a crise é meramente eleitoral e, no limite, apenas pretende disputar com tucanos o monopólio da representação da classe dominante sem a qual acreditam ser impossível governar o Brasil. No purgatório, o petismo não promove a necessária auto-crítica para ganhar direito a nova vida e considera que não pode romper com as leis mais importantes para a burguesia, mesmo que precisamente esta fidelidade tenha sido a responsável última por sua desmoralização pública.

A crença comum do petucanismo e a esquerda responsável
Quando FHC apresentou ao parlamento a LRF, deputados e senadores do PT votaram contra. Corria o ano de 2000 e Palocci, Marina Silva (sim, Marina votou contra a LRF!), Berzoini, Waldir Pires, Nilmário Miranda e Jaques Wagner votaram pela rejeição do projeto. Não estavam sozinhos. O ex-candidato presidencial e peça de reposição burguesa no jogo eleitoral, o pernambucano Eduardo Campos (PSB), também votou contra, da mesma forma que Aldo Rebelo e Agnelo Queiroz, ambos do PC do B. O mundo dá voltas para a direita, não?

Algum tempo depois - mais precisamente cinco anos - Palocci (após ocupar o posto de ministro da economia) declarou que "nós, naqueles idos de 2000, não demos apoio à lei. Foi uma falha da bancada e eu me incluo nessa falha". (FSP 4/5/2007). Na mesma época, o senador Aloísio Mercadante subiu a tribuna da senado (Agencia Senado, 4/05/2005) para revelar que o governo Lula era mais zeloso que FHC no manejo das contas públicas: "é inquestionável que a lei de responsabilidade fiscal foi muito importante para o país". A conversão petista ao credo liberal se fazia completa e os erros de juventude estavam, finalmente, superados.

Enfim, o PT e seus principais líderes - Lula a frente, obviamente - assumiam plenamente a defesa dos postulados essenciais da classe dominante ao adotar a LRF na vã tentativa de conquistar a confiança das classes dominantes, esquecendo que estas não necessitam dos partidos políticos e de líderes populares para manter a situação sob controle. Não devemos, portanto, subestimar a força das leis de bronze. Ainda quando revelam seu poder destrutivo, as leis de bronze podem manter o encanto sobre suas vítimas. Não somente o PT e sua "base aliada" mantém fidelidade ao principio da austeridade, senão que setores da esquerda "que não se vendeu ou se rendeu" reivindicam a necessidade de uma  "esquerda responsável", cujo lema não poderia ser mais nocivo: o "Estado deve caber dentro do orçamento". Não é pequena a conquista ideológica da classe dominante! A consequência prática do simpático postulado - o Estado deve caber dentro do orçamento - é que o povo deve viver de maneira permanente na austeridade.
A conversão e a luta contra o pecado

Ora, a defesa de uma esquerda responsável limitada a manter a ação estatal nos limites de um orçamento austero rompe com a tradição da economia política pois, desde o século XVII, a ciência gris ensina que o orçamento é produto da riqueza social-estatal e não o inverso. A riqueza, conceito tão elementar quanto esquecido no Brasil, segue crescendo com a mesma força com a qual multiplica a desigualdade social. A burguesia brasileira - comerciantes, industriais, banqueiros, latifundiários - professam em uníssono o respeito a austeridade permanente como se, de fato, a praticassem e, no limite, não pudessem viver sem ela. No entanto, a historia das crises revela, que a burguesia necessita tanto da política de austeridade (LRF) quanto da produção de déficits. Na verdade, a produção do déficit é ingrediente decisivo no processo de acumulação de capital desde quando a Inglaterra criou um banco a partir da dívida estatal e produziu o impulso capitalista necessário para se transformar na oficina do mundo. Não fosse o consenso em economia tão rasteiro entre nós, seria ocioso recordar questões tao elementares da historia do capitalismo completamente ignoradas em função do caráter ideológico do "debate" econômico.

Teoria e práxis do rombo fiscal
A história do capitalismo contemporâneo evidencia o caráter ideológico da lei de bronze pois tanto o principio da austeridade quanto a produção do deficit depende sempre de interesses concretos. Enfim, a lei deixa de funcionar quando a conveniência burguesa determina; em consequência, as classes dominantes, quando necessário, desprezaram sutil e completamente as leis de bronze com o conhecido recurso do assalto ao estado. Assim, os déficits supostamente indesejáveis se tornam inevitáveis e a defesa aberta da LRF vai pra segundo plano em função das exigências da conjuntura. A dívida do estado é, finalmente, o grande negócio para os capitalistas, razão pela qual seu pagamento religioso é também considerado uma lei de bronze: dívidas devem ser honradas em qualquer situação. O pagamento da dívida requer superávits fiscais e comerciais permanentes e, em consequência, a austeridade se transforma em imperativo político-moral.

Os banqueiros - não simples ladrões - assaltam o Banco Central
Os capitalistas aceitam a erupção dos déficits quando a quebradeira de empresas (geralmente monopólios) exige a intervenção do Estado tal como ocorreu em 2007 e 2008 nos Estados Unidos. O governo republicano de George Bush não vacilou em utilizar recursos públicos para salvar a General Motors, o sistema bancário, as seguradoras que estavam em completa bancarrota pela ação de seus executivos. A extensão do fenômeno indica quebra sistêmica, jamais produto da ação "irresponsável de um executivo"; ao contrário, ainda que muitos deles foram processados individualmente, ficou claro que a administração temerária dos grandes monopólios era, na verdade, um modelo exigido pelas regras do jogo. O Estado então aprofundou o déficit para salvar os monopólios sem vacilação alguma e naquele tempo ninguém - na imprensa ou nas organizações patronais - lembrou da doutrina das contas públicas superavitárias.

O Brasil não foge a regra, mas tem lá sua particularidade. O quadro abaixo mostra a evolução do superávit primário, do gasto financeiro e do resultado nominal até 2015 segundo os dados do Banco Central.

                Ano                primário        gasto financeiro       resultado nominal

2003
55,6
-144,6
-89,0
2004
72,2
-128,5
-56,3
2005
81,3
-158,1
-76,8
2006
75,9
-161,9
-86,0
2007
88,1
-162,5
-74,5
2008
103,6
-165,5
-61,9
2009
64,8
-171,0
-106,2
2010
101,7
-195,4
-93,7
2011
128,7
-236,7
-108,0
2012
105,0
-213,9
-108,9
2013
91,3
-248,9
-157,5
2014
-32,5
-311,4
-343,9
             2015                -111,2               -501,8                -613,0

Até 2013 os sucessivos governos do PT acumularam suculentos superávits fiscais (superavit primário). O gasto social era controlado com mão de ferro, a despeito da propaganda governamental sobre os programas sociais e a ideológica emergência de uma nova classe média num país subdesenvolvido.

Em 2014 apareceu o primeiro déficit em mais de uma década; ainda assim, cifra modesta: apenas R$ 32,5 bilhões. Na verdade, ao contrário do que afirma a oposição tucana, o minúsculo déficit não era sequer capaz de fomentar ações do governo para enfrentar um ano eleitoral, no qual, como manda o comportamento republicano vigente, o governo colocaria a máquina a funcionar em favor de seus candidatos. O reduzido déficit, no entanto, não pode ocultar tema relevante: neste ano, ocorreu fantástico crescimento do pagamento de juros, pois enquanto 2013 a orgia financeira consumia 157 bilhões, em 2014 exigiu adicionais 343,9 bilhões!! Esta rápida evolução dos gastos com o rentismo financeiro deve-se em primeiro lugar a decisão de Dilma em aplicar a ortodoxia neoliberal na condução da política econômica. Os banqueiros pressionaram como alegam petistas? Claro que sim! Mas quando foi diferente? Os banqueiros pressionam há séculos os governos e aproveitam toda crise para assaltar o Estado via dívida pública e empréstimos externos.

A situação já insustentável piorou ainda mais em 2015 com a política ultra neoliberal aplicada por Dilma. O déficit primário, ou seja, o gasto do governo sem a contabilização dos juros, alcançou 111,2 bilhões; mas o déficit nominal, aquela cifra que contabiliza o pagamento de juros, registrou importante acréscimo: saltou para 613 bilhões (501,8 bilhões com o pagamento de juros), quase o dobro do ano anterior.

Neste contexto podemos entender o giro a direita operado por Dilma quando, de maneira surpreendente para seus desavisados eleitores, adotou sem vacilação o programa defendido por Aécio Neves. Nenhuma surpresa, antecipo, pois a causa fundamental do giro à direita estava escrito nas estrelas. Numa economia dependente, comandada pelo rentismo, somente um estadista poderia convocar o povo e mudar o rumo da economia e do Estado. Dilma e a cúpula petista - Lula à frente, sempre - decidiram praticar a política do adversário derrotado com a certeza de que não poderiam deixar a burguesia sob hegemonia tucana. Ao adotar o programa liberal, Dilma julgou que mataria dois coelhos com uma cajadada: segundo seus cálculos, a direita estaria com ela na medida de seus interesses e a esquerda julgaria que tudo poderia ser pior com Aécio, aceitando, assim, a dura realidade. Não se deve esquecer a pressão quase pública de Lula para levar Meireles ao comando da economia, indicando a "necessidade" da rápida atuação para o insaciável apetite rentista. Enfim, é legitimo considerar que Lula queria mais rapidez no ajuste e todos podem recordar seu breve ativismo no meio sindical ao afirmar que a questão decisiva não era o pântano moral da cúpula petista mas a crise econômica.

A súbita guinada à direita não decorria, portanto, somente da suposta astucia e descarado oportunismo político da direção petista. Era, na verdade, uma imposição das condições concretas, das exigências da república rentista e especialmente da fração financeira da burguesia diante da minima ameaça de interrupção do fluxo financeiro a seu favor em caso de inadimplência do Estado. A redução da capacidade de pagamento permitiu a cena necessária para a mudança de rumo, o fim da breve e precária primavera keynesiana (nova matriz econômica) e a fatal imposição da volta à ortodoxia como se, de fato, os políticos tivessem finalmente recuperado a lucidez que as finanças reclamam.

A crise escancarou outro ritmo. A burguesia queria um ajuste rápido e profundo, sem a parcimônia petista que faria tudo exatamente igual, porém, de maneira "negociada". É claro que o ajuste praticado por Dilma foi violentíssimo! Milhões de desempregados em poucos meses, acelerado processo de decadência e desnacionalização industrial, agravamento da questão fiscal pela recessão, desvalorização da moeda e certa inflação para corroer o poder de compra dos salários. A crise financeira do Estado - diretamente proporcional a força da política de juros praticada pelo governo via Banco Central - era de fato inocultável, mas Dilma não somente vetou a auditoria da dívida como insistiu na natureza fiscal de um problema sob o qual já não tinha controle.  

Na cabeça dos keynesianos a política econômica deveria defender a industria nacional, mas eles parecem ignorar os efeitos destrutivos do Plano Real sobre a burguesia industrial. De fato, a participação da industria de transformação no PIB era em 2004 de quase 18% e declinou em 2015 para 9%. Tal como no poema de Drummond, "burguesia industrial já não há". E agora José?

Não é a força da burguesia mas precisamente seu raquitismo industrial a origem do protagonismo da FIESP na Avenida Paulista nas manifestações de massa contra um governo acuado moralmente e decidido a recompor o pacto de classe sem ativismo sindical e popular. Os economistas keynesianos estavam roucos de tanto gritar desde a UNICAMP por "outra política econômica" centrada no "fortalecimento do emprego e renda", mas sofriam a mesma solidão do planalto: quais forças sociais os apoiavam? A falta de realismo apareceu na tentativa tao desesperada quanto ingenua do "compromisso pelo desenvolvimento" no qual a CUT, Força Sindical, UGT, CTB, NCST e CSB pelos trabalhadores e a CNI, Anfavea, Abimaq, Abit entre outras entidades patronais defendiam o "melhor dos mundos possíveis" onde - alimentados por imensa ilusão de classe - supunham garantir o desenvolvimento do país. Era beco sem saída, a vida comprovou. Não é fácil tentar pacto com a lumpemburguesia.

O caminho de Guermantes - Proust

Um golpe de classe?
A burguesia brasileira - sempre dirigida pelo capital financeiro - não vacilou diante da oportunidade. Uma vez instalado o governo Temer colocou Henrique Meirelles e Ilan Goldfajn, dois falcões da rapina financeira, no comando dos postos mais importantes da republica. Com velocidade invejável, os dois trataram de convencer a opinião pública que o rombo das contas públicas era muito pior do que mentiam os petistas. Na mesma escala em que incluíam no cálculo todo tipo de dívidas com o claro objetivo de inflacionar a conta final, estavam conscientes que a profundidade do ajuste seria proporcional ao volume do déficit. A mágica cifra de 170 bilhões de reais recompunha parcialmente a necessidade de seguir financiando o rombo na exata medida em que alimentava ainda mais o rentismo e, de quebra, permitia ligeira margem de manobra para o governo gastar por conta alguns bilhões para as necessidades da "base aliada" num ano de eleições municipais.

Os dias atuais revelam, portanto, o crescimento do déficit e a austeridade caminhando juntas. Déficits para financiar frações do capital e austeridade sobre o povo. A ideologia do sacrifício, tal como no cristianismo dominante, acompanha a ideologia da austeridade como se após este período de ajuste - duro, porém necessário - todos seriamos agraciados com uma política de renda e emprego novamente. No entanto, as classes dominantes não escondem o jogo e o governo anuncia que o vale de lágrimas não será passageiro: nada de frouxidão ou excessos nos próximos 20 anos!

Keynes na periferia
Com a LRF o liberalismo de direita julgou que tinha assegurado um valioso instrumento contra os governantes, especialmente importante contra o "populismo", considerado inclinação natural dos latino-americanos a irresponsabilidade nos assuntos de Estado. No entanto, o sono tranquilho durou pouco porque as exigências da vida são mais fortes. 

Em 2007/2008, a crise abalou os países centrais, com epicentro nos Estados Unidos e exigiu que o Estado - sim, aquele mesmo ogro filantrópico da consagrada expressão de Octavio Paz - abandonasse a antiga ladainha da "não intervenção na economia" e aos olhos atônitos do discípulo liberal concedesse aparente razão ao keynesiano intervencionista. 

Nos Estados Unidos os déficits são permanentes ainda que em 2015 tenha sido o mais baixo em 8 anos, segundo dados do Departamento do Tesouro. A cifra tocou os 439 bilhões de dólares, quantia 9% inferior a 2014. As fontes indicam que é o mais baixo desde 2007, quando a crise eclodiu com força nos países centrais. Ninguém com duas moléculas de realismo defendeu nos Estados Unidos um "orçamento equilibrado" e o fim do "déficit" para arrumar a economia. Lá, a teoria é outra. Existe, obviamente a ideologia do combate aos déficits mas foi esclarecedor observar como Bush, um republicano avesso aos subsídios keynesianos, tirou o cheque e cobriu rombos bilionários dos grandes monopólios em 2007 e 2008 quando a General Motors, os bancos e as seguradores foram a bancarrota após a orgia da liberalização... É grande a diferença entre a burguesia dos países centrais e a lumpemburguesia dos países latino-americanos!

Num breve texto de 1925 (Am I a liberal?), Keynes declarou a impossibilidade de assumir o Labour Party na Inglaterra porque este representava uma classe antagônica à sua origem social. Esperto, na mesma medida em que evitou o trabalhismo britânico, Keynes simulou distancia do conservadorismo e adiantou-se na defesa do que chamou "Justiça e o bom senso". Neste contexto, alegou que "... the class war will find me on the side of the educated bourgeoisie" (a luta de classes me encontrará sempre ao lado da burguesia educada), bordão abre-alas para certo ativismo keynesiano de corte progressista.

Agora, os keynesianos - Luiz Gonzaga Belluzzo talvez seja o mais visível deles - se dizem "heterodoxos" e de certa maneira a auto-definição serve como caminho fácil para ocultar - por conveniência ou ignorância - as raízes ortodoxas de seu mestre mais famoso. Tal comportamento evita o tema da conversão, tao decisivo na fé quanto na ciência. Enfim, Keynes nem sempre foi um keynesiano, tal como o reconhecemos agora. Ao keynesianismo brasileiro lhe falta dentes para morder e, de fato, eles assumiram há tempos a ideia ortodoxa segundo a qual os "fundamentos da economia" devem ser sólidos e não convém brincar com política fiscal (déficits fiscais). Por esta razão toleraram durante uma década a LRF pois, apesar dela, conseguiam vender suas ilusões por meio de governos petistas com reduzidos programas sociais e a feliz suposição de uma "nova matriz econômica". O pacto de classe funcionou e os programas sociais permitiram aos "heterodoxos" fazer de conta que os custos do processo não dependiam da superexploração dos trabalhadores sem a qual nada funciona.

Durante todos estes anos, os keynesianos silenciaram sobre a guerra de classes, ao contrário de seu mestre mais ilustre. O famoso tripé - política monetária austera, cambio flutuante e taxa de juros elevada - considerada expressão da racionalidade científica representa, na verdade, os interesses das distintas frações de classe racionalizadas pelo economista. A ideologia dos economistas não raro é produto de deficiências teóricas graves mas é decisivo entender o limite do keynesianismo nacional também como manifestação da ausente base material, ou seja, a inexistência de uma burguesia industrial ascendente. Temos exatamente o oposto! Aquela tirada de Keynes segundo a qual "a luta de classes me encontrará sempre ao lado da burguesia educada" é até simpática em termos literários mas rigorosamente falsa no solo histórico latino-americano. Aqui, uma burguesia educada - que, de fato, tampouco existiu nos países centrais! - seria um luxo não fosse apenas um desejo irrealizável do bom mocismo político brasileiro e seu corolário, a colaboração de classes em prejuízo dos trabalhadores. André Singer, ex-porta voz de Lula, manifestou como ninguém a "descoberta" nas vésperas da votação contra a presidente: segundo o professor da USP era muito significativo que a luta de classes tivesse voltado à cena "trazida pela direita e pelo capital". Arrematou atônito: "Isso é surpreendente. Por que essa ofensiva diante de um projeto, de um governo que o tempo todo tentou conciliar, desde 2003 até agora, e jamais apostou na ruptura e no enfrentamento?"

Nas condições do capitalismo dependente latino-americano, a crise evidenciou a margem de manobra reduzida para os pactos róseos que a maior parte do sindicalismo e dos economistas heterodoxos defenderam. A realidade atropelou todas as ilusões. Não sabemos por quanto tempo estas mesmas ilusões podem ainda comandar as esperanças ingenuas dos homens. Não oculto certo otimismo neste difícil momento pois, diante da ofensiva do capital, os trabalhadores podem entender que nada devem esperar da lumpemburguesia brasileira e, em consequência, nada tem a perder. Exceto, é claro, aqueles velhos grilhões que os mantém atados ao sistema que os explora e oprime.


PS: agradeço a Mauricio Mulinari os dados da tabela e também as permanentes conversas que temos mantido nos últimos anos.